Os males causados pelo consumismo na infância
Causas e conseqüências
Atualmente, o consumo desenfreado na vida das crianças é responsável pelo
surgimento de inúmeros problemas, dentre os quais destacam-se, como sendo os
mais comuns, a obesidade infantil, a banalização do consumo, o materialismo
excessivo, o desgaste das relações sociais e o estresse familiar.
A obesidade infantil é decorrente do consumo de alimentos pouco nutritivos,
recheados de gorduras, açúcares e/ou sódio. A banalização do consumo é verificada
quando a criança perde, ou mesmo nem chega a adquirir, a noção de quanto custa a
seus pais a compra dos produtos que almeja. O materialismo excessivo ocorre
quando a criança acredita que para ser feliz precisa ter algo. O desgaste nas relações
sociais acontece de forma ampla e o estresse familiar quando, por exemplo, os pais
tentam solucionar o problema já existente, negando a compra de produtos desejados
a qualquer custo por seus filhos.
Porém, não são somente esses os distúrbios costumeiramente provocados
pelo consumismo entre os pequenos. Há também a violência na juventude e a
sexualização precoce e irresponsável na infância. A aceleração da puberdade, por
exemplo, faz meninas de dez anos comportarem-se como adultos mirins,
pressionadas por seus grupos a darem o primeiro beijo ou a terem a primeira relação
sexual, assim como a consumirem roupas, acessórios, maquiagens e celulares.
Essa necessidade do consumo por crianças e adolescentes – principalmente
como forma de conquista de auto-afirmação pessoal – cria ainda graves problemas
com relação aos valores que levarão para suas vidas.
E mais, de acordo com o neurologista PLÍNIO FERRAZ, a oneomania,
doença que gera compulsão pelo consumo, ou seja, o desejo incontrolável pelo ato
de comprar, já atinge também crianças1, sendo que os principais sintomas dessa
compulsão são a angústia e a ansiedade.
Mas não é à toa que as crianças e os jovens estão se tornando, cada vez mais,
consumistas. O consumismo na infância e na juventude tem origem nas agressivas
técnicas de marketing utilizadas para conquistar esse público alvo. Técnicas tais que
são decorrentes do fato de o consumo dos produtos voltados ao mercado infantojuvenil
movimentar gigantescas somas de dinheiro em todo o mundo.
Informação destacada de matéria jornalística redigida por LUCIEN LUIZ em 30.3.2006. Conforme reportagem da revista da MTV, da Editora Abril, nº 47, a Organização Mundial da Saúde – OMS – aponta que 1% da humanidade sofre dessa enfermidade, sendo que no Brasil 3% da população são considerados shoapholics, contra 2% nos Estados Unidos1.
Para se ter idéia do volume de dinheiro envolvido nesse mercado, vale observar que a indústria voltada para produtos dirigidos a meninas, no mundo, movimenta anualmente US$15 bilhões. No Brasil, só a moda infanto-juvenil movimenta a soma anual de R$10 bilhões, o que corresponde a um terço de toda a roupa consumida no país!
Adolescentes brasileiras gastam em média 60% da mesada com cosméticos e representam, aproximadamente, um contingente de 10 milhões de meninas, em um mercado cosmético que no ano de 2005 faturou R$947,7 milhões
Não é por acaso que a equação clássica do licenciamento, por meio da qual os personagens de filmes de sucesso eram transformados em produtos diversos, começa a ser invertida, fazendo com que brinquedos virem astros de filmes, com o intuito de alavancarem as vendas de vídeos e DVD´s, como aconteceu no caso dos filmes Hot Wheels Velocidade do Silêncio e Barbie e a Magia de Alladus, ambos da fabricante Mattel, e Bratz Rock Angelz, da Gulliver. Isso, segundo o conceito da gerente de marketing da Universal Pictures, teria vindo para facilitar a vida dos pais, pois agora os produtos ficam lado a lado nas prateleiras e, se eles não têm dinheiro suficiente para comprar o carrinho ou a boneca, podem adquirir o filme!
E não é apenas o mercado de produtos e serviços infantis que movimenta o consumo das crianças. Seu poder de influência na hora das compras subiu de 71%, no ano de 2000, para elevados 82% em 2005. Isso significa que o público infantil revelou-se um atraente mercado consumidor porque praticamente manda no bolso dos adultos. E o setor acerca do qual as crianças mais opinam não é o de brinquedos – este está em terceiro lugar, com 31% – mas é o de alimentação, com 42%, seguido pelo de eletrônicos, com 33%. Entre os gêneros da indústria alimentícia, no ano de 2005, o maior aumento de vendas foi no de chocolate, cacau e balas, que faturou R$6 bilhões no Brasil e por isso teve um aumento de 16% no período.
Já entre os produtos tecnológicos o celular é destaque. No Japão 41% das crianças já têm seus próprios telefones, sendo que, no Brasil 39% dos pais pretendem comprar um aparelho para seus filhos e 25% das crianças que já o possuem têm entre 6 e 9 anos.
Por que uma criança de 6 anos precisa de um celular? Não há nenhuma razão que justifique mais essa necessidade criada pelo mercado de consumo, além da antecipação da idade adulta. A respeito dessa questão, interessante observar que as regras de proteção do governo inglês sugerem que crianças com menos de 12 anos não usem telefones celulares.
As crianças não podem ser tratadas como adultos em miniatura, mas como seres humanos já dotados de todos os direitos e garantias respectivos. É bem certo que necessitam de proteção especial por conta de sua peculiar condição de pessoas em desenvolvimento, pois vivenciam uma etapa de vida distinta daquela vivida pelo adulto. Contudo, não são seres inacabados a caminho de uma suposta plenitude na fase adulta.
Aliás, faz mal às crianças antecipar-se a sua idade adulta. É importante que sejam tratadas como tal e tenham seus direitos assegurados, inclusive o de brincar, que, entre outros tantos benefícios, é responsável por auxiliá-las no desenvolvimento emocional, da inteligência, da afetividade, da cognição, da coordenação motora, da imaginação e da criatividade.
Não há dúvidas de que os pais são também responsáveis pelos problemas advindos do consumismo cada vez mais verificado nas crianças. Muitas vezes por trabalharem o dia inteiro fora de casa, quando vêem seus filhos sentem-se culpados e fazem as vontades das crianças, como forma de compensar-lhes suas ausências. Porém, ao invés de ajudá-los, os pais acabam prejudicando sua formação.
A interação entre filhos e pais não pode, com efeito, limitar-se às idas nos finais de semana aos shoppings centers, com suas áreas de jogos eletrônicos, cinemas e praças de alimentação repletas de fast food. Os pais não podem querer compensar suas ausências com compras, mas, ao revés, precisam impor limites aos seus filhos, pois crianças e adolescentes necessitam aprender a conquistar e não simplesmente ganhar tudo sem qualquer esforço.
É nesse aspecto que entra a influência da mídia, com suas várias técnicas agressivas de persuasão, responsáveis por incitar esse consumismo, principalmente por meio dos anúncios publicitários divulgados na TV.
A propósito, deve-se chamar a atenção ao fato de que o Brasil, hoje, é o recordista mundial na quantidade de horas que suas crianças assistem TV por dia: 4 horas e 51 minutos8! Essa quantidade de horas – maior que a média norte-americana – é ainda mais assustadora se for observado que 80% da programação a que assistem é formatada para o público adulto.
Ao invés de estimular nas crianças e adolescentes a capacidade de pensar e contribuir, como um verdadeiro meio de educação propiciado por uma concessão pública, a programação televisiva brasileira possui baixa qualidade e muito poucos programas essencialmente direcionados a esse público.
E o que é pior, os anúncios apresentados durante os intervalos comerciais – e mesmo inseridos como merchandising durante a programação de TV –, apesar de também anunciarem produtos infantis, são elaborados sem o necessário cuidado com a formação dos valores dessas pessoas.
Aliás, talvez nem pudesse ser diferente porquanto, por suas próprias características, a publicidade dirigida às crianças é intrinsecamente abusiva, na medida em que se vale das notórias fraquezas do público infantil – ou mesmo de sua inerente hipossuficiência – para formar seu convencimento e, com isso, criar desejos e vontades de consumo.
Precisa de uma luz no fin do Tunel?


