ARTISTA PLÁSTICO
PAULO DE OLIVEIRA SIMÕES
SONHOS (ESPAÇOS) DE VIDA
Prezadas Senhoras, prezados Senhores,
na última sexta-feira o jornal Westdeutsche Allgemeine Zeitung mostrou, em sua primeira página, um artigo não usual. O título foi provocador: “O Cardeal Bush é um Álibe Cristão”. Estas palavras foram proferidas pelo arcebispo brasileiro Agnelo. Como V.Sas. podem ver, de repente o Brasil não está tão distante, mas, sim, bem perto. O Cardinal é da cidade litorânea de Salvador, na Bahia, na região, em que o artista trabalha. As obras de arte que V.Sas. verão hoje foram criadas bem longe, além do Atlântico.
Foi um francês que nos deu, na Renânia do Norte, Palatinado, uma nova visão. Jean-Hubert Martin, Diretor geral da Fundação Museum Kunst Palast (Palácio Museu e Arte) de Duesseldorf, com sua exposição “Arte Sacra para Ajoelhar-se”, após o que, com “África Remix”, estendeu suas idéias a respeito da visão delimitadora da arte do Leste, ou seja, a arte mundial da Europa e do Estados Unidos da América do Norte, impregnada pelo Ocidente, e voltar seu espírito num estado globalizado, maior. Isso não é tão fácil como acionar um interruptor. Permitam-se ensaiar, nesta exposição, a lição recém aprendida. Pois o artista brasileiro PAULO DE OLIVEIRA SIMÕES não é um autor da periferia cultural, que se esforça para alcançar os padrões europeus e norte-americanos, nos quintais do Estados Unidos da América do Norte.
Encontramos em SIMÕES um mundo gráfico necessariamente forte, estonteante pela sua riqueza e de uma vontade naif fabulosa. Vamos lembrar-nos de como os expressionistas e Fauves se inspiraram na “selvageria” dos povos antigos. Porém, para não levantar suspeitas, SIMÕES não é selvagem. Não estamos falando de nenhuma tribo indígena na região do Amazonas. SIMÕES é culto, freqüentou uma escola do Leste, e, mesmo assim, é diferente.
PAULO DE OLIVEIRA SIMÕES tem hoje 39 anos. Tem esposa e filho. Está no centro da vida de seu país brasileiro. Não mora em metrópoles como Rio de Janeiro, São Paulo ou Brasília, mas, sim, na pequena cidade litorânea do Atlântico, Canavieiras, Estado da Bahia.
Se V.Sas. não sentirem o efeito “oh”, não significa um problema. Eu também não o sabia até ha pouco tempo. É importante ressaltar, que na região predomina a influência dos escravos negros da África, trazidos ha centenas de anos. SIMÕES não é negro e tampouco recai, com a sua arte, no folclore africano ou brasileiro. Se conseguirmos agregar biquíni tanga, Pão de Açúcar, samba e capoeira como um todo, não estaremos fazendo jus a este tipo de arte.
Mas no seu quadro “Domingo na Praia”, o artista bem mostra o sentido de sua arte. Vemos pessoas que se encontram casualmente, o ritmo das ondas misturando-se à batida dos tambores. O olhar no horizonte é o olhar de volta ao firmamento. Dois continentes ultrapassam o oceano mas, talvez – visto de longe – este passa a ser um pensamento bastante romântico. Em exposições na Alemanha ele mostra quadros como “No Exílio do Mágico”. Mas V.Sas. não precisam buscar a boneca de voodoo que existe em cada um de nós para compreender a obra. Ele está sentado no centro e carrega duas figuras nos braços. Assim por dizer, no seu exílio. As obras de SIMÕES nos fascinam e, ao mesmo tempo, estranham. Nos parecem estranhas, porém, reconhecemos nelas conhecidas charadas da vida. São coloridas e figurativas, mas não exageradamente. Com sua arte o artista brasileiro consegue trançar a etapa do surrealismo europeu com a linguagem natural do continente negro, formando, assim, sua própria forma. Sobre nós, companheiros da arte do leste europeu, recai uma sensação de força, colorida, cheia de símbolos e magicamente secreta. Feliz daquele que assim sonha. É uma criança feliz quem consegue passar essas imagens de sonhos para uma tela.
A temática de suas pinturas gira em torno do ciclo da vida, desde a concepção até a morte. Como um mágico das cores, SIMÕES projeta em objetos e telas, uma vida de sonhos além dos horizontes conhecidos. A escultura provavelmente mais antiga da arqueologia mostra uma Vênus obesa. Em suas representações de mulheres ele lhes aumenta o traseiro e os seios. Mesmo não fazendo parte desta exposição, não se trata de meras fantasias de um homem, mas, sim, a continuidade conseqüente de uma fé criadora. Uma Madona preta, levemente esbranquiçada.
SIMÕES observa as pessoas à sua volta. Descansam aos domingos na praia, jogam Backgammon. Para SIMÕES, os índios são os sucessores dos negros. Da luta proibida aos escravos foi criada uma modalidade esportiva, a capoeira, que hoje é ensinada nos nossos centros esportivos. Capoeira é também esta exposição. Os quadros se agridem, mas não querem magoar. Consistem na elegância de sua criação, mas tocam pela força de seu linguajar simples.
A arte de SIMÕES consegue abarcar todo um continente em um só quadro. O elemento indígena, a religião natural, o continente negro e a herança dos colonos europeus, somando-se a tudo a sombra da superpotência norte-americana, eis a sua receita. PAULO DE OLIVEIRA SIMÕES não transforma sua arte em um programa calculista, mas, sim, introduz – de forma muito sensitiva – em países de sonhos. Acentua e repete o surrealismo. Partes do corpo, olhos, ele absorve cabeças – o ET manda lembranças.
Um de seus quadros se chama “Limpeza do Caminho para o Santo Boaventura”. Um comparativo maravilhoso do artista, que limpa o caminho, com sua arte, para um conhecimento maior. Boaventura, recuperado de uma grave doença quando criança, foi dado – como promessa de sua mãe – à Ordem de São Francisco. Promessas contra a miséria e a proximidade da natureza encontram terra fértil na Bahia, numa cidade que alcançou fortunas com diamantes e hoje está fadada ao anonimato.
“O justo continuará trilhando o seu caminho”. SIMÕES é como um justo, que segue a trilha de sua arte. Ele ama o Evangelho da Libertação, conforme Isaías 9, 2: ”O povo que andava em trevas viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz.” Seus quadros respiram religiosidade e a confiança em Deus de tal forma, que muitos de nós sequer imagina. SIMÕES pinta as pessoas em reverência, a cabeça para trás para poder enxergar o céu. Tenho a impressão de que nós olhamos demais para os nossos pés.
E sempre uma figura com uma vela. A luz que dela emana é a divisora dos mundos, transformando energia, como lembrança branda da nossa fragilidade e conscientização de outra forma de vida. Em seguida, porém, a insegurança: “Carnaval dos Escolhidos”? O que isso quer dizer? A “Oração para a Chuva” espelha com ênfase a etnia, os índios estão novamente no centro. E nós temos que confessar, que muito pouco entendemos do que se passa entre o céu e a terra. Vamos nos unir ao peregrino de SIMÕES e formar uma corrente humana de homens e mulheres confiantes na mensagem de Jesus, para não lidarmos com o destino das pessoas.
O título “Entre o Dia e a Noite” é um sonho de quadro, mas, SIMÕES também se inspira em fatos históricos como o “Descobrimento do Brasil”. Apesar da caipirinha e do Pelé, nós ainda não descobrimos o Brasil. Deixem-nos “meditar” ou, simplesmente, passar um “domingo na praia”. São títulos das obras do mundo artístico de SIMÕES.
E chega de tanto falar. “Calar é ouro”. Não deixem que seus lábios se fechem, não deixem que seus olhos sejam emplastrados. Abram-se para uma perspectiva totalmente independente além do Atlântico. Entreguem-se à magia do mágico e vejam as figuras mágicas de PAULO DE OLIVEIRA SIMÕES.
Muito obrigado pela magia de sua atenção.
Dr. Heribert Brinkmann
Redator Cultural do Jornal “Rheinische Post”






